— Metafrasta, Maria Clara Beta.
Era gratificante observar. Apesar de narrador oculto, implícito em pensamentos obscuros de um personagem sonhador de vida própria – que mesmo fazendo parte da minha história, não havia manejo meu em suas ações pré-destinadas – e outras séries de pesares e fins, a visão era airosa. Tudo o que eu divisava era um casal juvenil enamorado, voejava em pensamentos, substituindo um dos amantes pelo meu eu carecido, mas não era semelhante ao fogo da paixão, que ardia e queimava lentamente, arrastava-os para os diversos céus e dimensões, e em um suspiro de alegria, consumiam-se nas palavras doces e na saudade que apertava no peito de cada um dos amantes. E eu não fazia parte disso. Entretanto, a beleza inconfundível da jovialidade coberta de vida do casal, ressarcia-me. Apesar da minha exclusão. Apesar de não entender fartamente tal sentimento. Apesar do fogo não ser em mim, e o júbilo incessante não ser suscitado pelo meu espírito amante descontente. Apesar da constante vontade de intervir em tal adorável situação e traze-la para meus versos nobres, onde além de oculta, seria personagem. Apesar da alacridade dele influenciar na falta da minha e provocar o regozijo dela. Apesar dos pesares infindáveis e da vontade que grita silenciosamente para percorrer tal calor que foge-me… Aqui estou, admirando, com a alma preenchida e a mente transbordando versos nobres. Sim, aqui estou, planificada em um pretérito amargo coberto pelo fogo que agora vejo. E por fim, aqui estou, observando o inicio do fim de um casal apaixonado, pois que há fim, há. E isto quem decide não é minha humilde mente, mas sim o injusto destino, pois a única lei que há na insana e desgovernada paixão é: ela é finita.
E em meu intelecto pestaneja o questionamento do por que do finito, da razão do extremo. Aquele casal amante e jovem, coberto e transbordante pelo almejo de viver e amar-se, um dia, será substituído por outro par, talvez, quase tão belo de observar quanto este me agrada a vista. Porém, ainda sim, serei narrador paralelo, oculta, implícita, com um milhão de almejos, entretanto, ainda a observar e nunca sentir tal quentura. Mas não me incomodo. Pois como já grafado em versos cobertos de desespero, sei que é finito. E tal fervor que aquece a alma e acalma o espírito, longo transformar-se-á no gélido adeus. Seja no romper do jovial casal, ou na morte de um singular. Entretanto, a beleza inconfundível da natureza apaixonada, nunca falecerá e perdurará em gelidez eterna, e é por isso, que os observo amar.
O infinito soa como um lar. Pertenço ao infindável.
Despertei e afundei-me em mim, pois pertenço ao intenso. O dia passou e perdura em mim o almejo de fugir. Em mim não é o meu lugar predileto, pois possuo extremos: fins. E eu pertenço ao infindável.
Quero morar no amor.
Pois a finita paixão já não me satisfaz. Quero ser viva.
“Mas é claro que você está viva.” O pensamento estúpido cortava minha poesia. “Seus cabelos voam, seu coração pulsa… Você vive, idiota.” Minhas reflexões intervêm na maior delas: minha constante prosa.
Mas aonde eu estava?
Ah sim… É claro! QUERO SER VIVA! Maiúsculo mesmo, pois quero intensidade. Brando um clarão de vocábulos compostos pela intensidade de um espírito fadigo. São retalhos de uma vida escassa de prosperidade, entretanto, contraditoriamente, o afundarão em questionamentos que movem o globo, e não levam para lugar algum… Pois permaneço onde estou, plana em uma base, transbordada de idéias e distanciada da realidade.
Vivo um paradoxo.
Pois sou finita, possuo extremidades e fins. Entretanto, minha mente coberta pelos segredos veementes e impetuosos que são a cessação de um fim.
Mais um paradoxo: minhas idéias. Que colocam um fim ao fim. Fim do finito, fim da barreira. Vivo em um mundo infinito de constelações de desejos infindáveis.
Outro paradoxo: meus desejos. Que já citados anteriormente, constituem-se na tenuidade de ser infinita. E principalmente: querer morar no amor. “Como se pode morar em sentimentos? Menina tola.” A razão, mais uma vez, incomodando meu ilusionismo que prega a felicidade. Mas desta vez, é analisável. Como morar no sentimento? Talvez ser coberta por ele seja um início agradável.
CUBRAM-ME! CUBRAM-ME DE AMOR! Tornem o intenso da paixão na calmaria do amor e transbordem-me no infinito. E denovo, em brando, esbravejo meu desejo de ser infinita, morar no infinito, fugir. Fugir de mim, desabilitar a doença chamada razão que tende a cortar meu raciocínio poético, e viver do infinito: viver de amor, viver de reticências. “Cale a boca, moça estúpida.” Calo você, se pertences-me, calo-te agora e ponho-te um fim, cara razão. E não ouses pestanejar mais uma vez meu júbilo de voar, pois agora, o infinito me pertence, e eu, o pertenço. Logo eu, que não coloco pontos finais, estabeleço agora uma fronteira, me afasto da razão e fujo de mim. Hoje, sou só mente. Hoje, sou infinito. Hoje, sou amor. E assim serei, infindavelmente.
No fundo do oceano, reside um povo de paz. Uma pequena população que não possui conflitos nem preconceito. Uma curta e limitada população, filtrada pelos desejos dos deuses mais simplórios, que almejavam serenidade enquanto projetavam esse nobre povo de fé. Um povo sem combinações, pactos, convênios, tratados ou acordos, pois possuem o dom da regra implantada em si ao dar as primeiras velejadas no fundo do mar: a educação. Um povo musical, que soava para mim como o mi menor do violão, ou o ré agudo de uma flauta doce. Uma população que jamais vociferava, em brandos sussurrava o amor constante ao amigo ao lado. Conclamavam a paz, e a única lei era transparecer a felicidade que o espírito por vezes insistia em espantar, mas não lá… Lá o oxigênio era o amor, e o abraço era o presente, encontrando corações para espantar os maiores males, que lá, não residiam. No fundo do oceano, reside o baú que possui o mais almejado tesouro, na tal canastra transborda esperança, que é o que os seres precisam quando a cabeça tende a abaixar presente a uma dificuldade qualquer. E ao abrir a pequena arca que extravasa esperança e fé, o ser reergue-se na poesia, ainda ao som doce da flauta. No fundo do oceano, há vocábulos de sobra que formam a rima perfeita de um soneto qualquer; verbetes transbordantes de amor e afeto, doando afagos aos que clamam pelo olhar. O fundo do mar não é tão fundo assim, pois lá transborda luz e todo dia é dia e nunca noite, o obscuro – seja interior ou não – não os atinge. Neste simplório e pacífico local, possui apenas um idioma, chamado verdade, todos os sábios por ela se comunicam, e assim, mesmo às vezes sendo dura e áspera, se dissolve no mar, ainda sim, transparecendo amor. No fundo do oceano, a moeda é sorriso, e o emprego é doar amor. Não há guerra nem fome, pois o alimento é o silêncio que agrada, e a guerra some pois reina a harmonia e concórdia, acompanhada por uma generosa dose de júbilo. No fundo do oceano, a fé em si basta, e o velejar é sem velas, pois o vento às vezes não é confiável, e quem dita seu destino é o próprio: você, o deus supremo de si mesmo, quem controla o destino e dita o descaminho. Entretanto, em um dia comum e sempre feliz na terra maravilhosa, que seja a afundada Atlântida ou uma ilha sem terras, um turista chegou até lá. Este turista estudioso vinha da superfície, e seu papel era proclamar o que lá era pecado: ordenar, governar. O turista queria ser supremo, e retirar o que o povo possuía de direito e dever: o mais belo sorriso. E como o idioma era a verdade, o povo foi governado por um homem que não possuía a paz em si, nem sabia o caminho da canastra da esperança. E assim o povo foi pré-extinto e os poucos restantes subiram a superfície e hoje por lá vivem, junto do ser que é domado e proclama o mal: humano. Alguns converteram-se a esta raça impura, mas os outros, são os tais seres que nos guiam ao bem, eu ouso em vos chamar de anjos. O que eles são? A sabedoria que reside em cada um, e o amor que espalha-se pelos mais belos ares.
O tal menino pálido.
Pestanejava em meu intelecto tal questionamento: o que havia no menino pálido que o tornava sobressalente sobre todos os outros seres que cruzavam meus passos, caminhando por meus olhos, em desfoque eterno, fazendo transparecer o segundo plano, que sempre era o menino pálido do cabelo contraste. Ele caminhava em direção contrária a mim, enquanto meus olhos o clamavam, sua palidez refletindo o sol, coberto por seu cabelo eclipse, cobria todas as outras cadentes que pelo entardecer, cruzavam e percorriam meus descaminhos, passando pelo menino pálido, mas nunca tampando minha beleza de tal divindade suprema. O menino pálido não apenas se destacava pela dádiva do iluminar em que – ele cintilava em distância considerável, e mostrava-se galhardo e gentil, distanciado e destacando-se – mas também por ser esticado: alto e perceptivelmente magricela, sibilando beleza poética do alto, trazendo dos céus em que ele caminhava, uma hospedagem na minha alma. O menino pálido possuía um adjetivo curioso: uma pequena cova no meio de seu coração. E sempre que abraçastes o menino pálido, ouvirás a pulsação como um motor há 120 milhas por hora, avançando todos os sinais que teu corpo construiu para conter desesperado amor. E o menino pálido alegava ter o coração pequeno, por isso a abismo, por isso a pulsação acelerada… Entretanto, não acredito. O menino pálido, metaforicamente, possuía um coração de capacidade infinita, que cabia tudo – ilusoriamente ou não – deste mundo injusto. Menos as minhas ânsias e medos, desejos súbitos e incontroláveis. Teu coração suporta tudo, qualquer peso, qualquer capacidade, mas o meu não é compatível com o abastecimento da tua alma: não cabe, ultrapassa limites, apenas por eu ser assim mesmo: infinita, intensa. E apesar de querer permanecer dentro do menino pálido, o gostava assim, inteiro, de coração puro e divino, sem as rachaduras que o meu dentro dele causaria… O menino pálido, após cruzar centenas de vezes minha estrada tortuosa – andando com seu desjeito encolhido, captando frascos da humanidade e de alma poética e coberta por covas –gravou a imagem em mim. Rendeu-me uma ou duas poesias, umas linhas de livro e muita inspiração para um novo caminho construir. Não segui com o menino pálido, pois se não havia espaço dentro dele, não contentar-me-ia em seguir os descaminhos do espírito apenas ao lado dele. Então, segui por mim, mas ainda sim, o menino pálido cintila sobre todos, supera o grau de poesia em si, posto no cálice da divindade e bebido por mim: uma mera poetisa que um dia desejou pertencer ao menino pálido. Que hoje segue e brilha para outros olhos, em outras esferas e galáxias. Mas seu brilho ainda é perceptível, e apesar das milhas de distância que pequeno coração com capacidade de voar para longe de mim traçou, ainda enxergo o teu brilho na minha estrada rotineiramente.
Subitamente, ela chegou. Vestida de luto, com uma expressão teatral nos lábios, desfez-se da masca diária da exatidão do sentir, e posou o olhar na minha expressão terminal. Desde então, ela soube […] soube que era o fim. O meu. Não o nosso. Encontrava-me segurando as laminas que levar-me-iam como ditam os religiosos escassos da sabedoria: a queimar na mais profunda infinidade. Mas eu não… Eu não…
— Não faça isso. — Ela disse, estranhamente, ainda fixada no mesmo ponto crucial no chão. Pois ela sabia, que mais um passo, e talvez fosse tarde demais para um adeus. E isso, ela havia de direito: o adeus.
— Há de se fazer, a escolha não foi minha, está na hora… Sinto que está. — Eu a disse, tentando explicar o porquê da minha partida. Mas ela não merecia porquês. A dor de uma traição foi cravada em mim, mas por amor, partirei. Por amor a mim. Amor a minha alma que será decomposta pelas fadigas do tempo. Amor pela paz que almejo, que ao lado dela, da traidora que possui todo o meu amor, não poderia ter. Por isso, partirei, por amor. Porém, não haveria de contá-la. E também, por puro amor. Amor ainda, a ela, que não merecia a dor de um adeus perpétuo com toda a culpa. Ou talvez merecesse… A questão é: o que sou? O covarde ou o demasiadamente forte?
— Só diga-me o porquê… — Ela clamava com os olhos, curvava-se diante do desespero, como uma alma perdida clamando pelo perdão… E por amor, eu concebia a mentira.
— Pois a vida é injusta e a paz está no submundo. É por amor… — Eu, desprovido da verdade e sem medo do que a mentira causaria ao meu julgamento onde quer que eu estivesse, provocava eufemismos para o bem da minha amada.
— Você ainda me ama? — Ela, sem medo, se aproximava e tocava meus pulsos que, já sangravam.
— Hoje, completa uma vida que eu te amo. — E uma verdade eu teria que dizer…
— Me leva junto contigo? — Ela clamou, desesperançosa.
— Tu és parte de mim, o nós continua a pulsar, mas agora, só por você. — E assim, parti por amor.
[…] e comigo, levei sua alma.
Eu em eu.
A maior audácia do ser humano em si é querer definir o incerto, praticar vocábulos para descrever o indescritível. E a maior indefinição humana, é o próprio eu. Suas ações contraditórias que depõe contra si no julgamento final, se é que esse tal tribunal dos céus realmente existe; talvez apenas nós próprios nos julgaremos e decidiremos o fim. Pois a vida humana sempre comparada com um manuscrito de inicio, conteúdo – vasto ou não – e finalmente o fim. E quem escreve o fim? Quem nos projetou ou quem nos desenvolveu – ou seja, nós mesmos? E eu, como humana falha, fúnebre e lutuosa que sou, insisto em desenvolver meu ato exímio de definições. E arrisco-me a escrever o final de meu próprio manuscrito, dar o meu veredicto e traçar o meu infinito, até conduzir-me ao após fim. Assim escrevo meu manuscrito, eu própria em eu mesma. Duas matérias, corpo e espírito, fadigas e retalhos, unem-se em verbetes para ser eu em mim, descrevendo o que eu quero ser, querendo ser o que sou, sendo o que quero ser. E devoro-me neste tal ser vasto por metáforas e linguagem poética que apenas eu em mim desvendo este manuscrito. E me arrisco a afirmar que sou, sou o que restou do ontem, costuras do pretérito que recompõem-se em tecido novo para escrever o clamado fim que se aproxima a cada milésimo de segundo que o relógio dita. E insisto, insisto e reluto contra os sábios que de sábios nada tem, que ditam-nos o que é descritível e o que é apenas para observar, e eles sussurram-nos para não tentar definir o eu, pois tu não conheces teu amanhã. E reluto. Reluto e afirmo que conheço o meu ontem, meu instante anterior a esse, pois o anterior gerará o próximo, isto é: eu conheço o meu amanhã. Por isso defino-me: humana, retalhada, relutante e teima em definições. E esta sou eu, dentro de mim, ilusória e matéria, eu em mim, eu escritora de minha mais recente e exímia obra: eu.
Foi por amor.
Prometo-te, que tudo, tudo, tudo foi por amor […]
Todos os descaminhos e a falta de fé, junto com partidas que partem-me o espírito, sorrisos quebrados que perdem-se no labirinto ilusório que é a nossa súbita paixão, que também, de súbito partiu-se e virou rotina, uma mera comodidade, e então, se parto agora, não quero partir-te, e juro-te: foi por amor. Pois não queria-te algemado numa maçante rotina dura, e sei bem – sei porque te amei – que a maré tocando teus pés não é o que desejas, mas sim surfar nos mais extensos tubos, cobertos pela maior beleza e choques de adrenalina que pode-se imaginar, então, anjo belo, se deixei-te, foi por amor. Oh, meu bem, não manche meus escritos de lágrimas cobertas por arrependimento vago e ilusório, não quero dizer-te que teu pranto é falso, mas teu lamento não convém a esta situação, pois se tu amas hoje, amarás amanhã, então cicatriza tua alma, e saiba que se fui, foi por amor. E se disse-te que nunca partiria, não pense que menti: nunca partirei este caminho bonito traçado com o rubi do teu olhar, mas partirei de corpo e alma, não deixando minha ausência presente, por amor a nós e ao que foi construído; não deixarei o bonito partir-se, por isso, se fui-me, foi por amor. Amor ao pretérito – mais que perfeito – que selamos com um beijo sem despedidas, apenas para quebrar o amor-rotina que havia sido traçado em nós, selamos a primavera doce; que hoje para tu parece amarga, mas juro-te que é o doce mais almejado pela humanidade, e se vou-me, anjo, foi por amor. E é este amor que consome a falta de amor presente nas partidas bruscas, e é este amor – belo e calmo – que encaixa-se perfeitamente nas pessoas mais puras, é este amor, que faz brotar frutos nas árvores, que faz gerar criações de amor, que faz nascer beleza no impuro. E este amor, meu bem, que não coube-se a nós: almas semelhantes, com ações opostas. Nosso amor foi falho, e no amor falha não há, por isso, parto… E juro-te: se parto hoje, é para zelar o que um dia clamou ser amor, é para não sustentar esta doença chamada rotina, para não almejar mais paz pois de paz já há o colo de mãe, mas sim as surpresas que a paixão nos trás, as esperas de espreita pela respiração que prende-se na amídala, querendo sair, presa em si, criando asas após desviar o olhar, e deixando a paz – que é a única gostosa – da paixão que vai e dá certeza que volta. Por isso, veja bem, meu bem, parto hoje, para não partir o que chamamos de amor.
E se parti, foi por amor […]